
Recordar, repetir, repetir, repetir... e elaborar
O título reproduz um chiste que circula entre psicanalistas fazendo referência ao artigo “Recordar, Repetir e Elaborar” (1914) de Sigmund Freud pondo a ênfase na repetição por revelar que em todo processo de análise, a repetição é a tendência privilegiada pelo psiquismo e que portanto, ela muito se alonga. Isto se daria em razão de um desejo de esquecer experiências incompatíveis com a possibilidade de acomodação simbólica. Neste mesmo texto, Freud articula repetição e resistência de modo a demonstrar que o que não pode ser recordado como lembrança, tende a ser repetido e atuado no presente: “...devemos tratar sua doença não como um acontecimento passado, mas como uma força atual.” (Freud, 1914. Pg.167) Ou seja, a repetição comporta uma recordação cifrada, e, para o autor, quanto maior a resistência, mais a atuação (acting out) substituirá o recordar. Dito de outra forma, o sujeito se insere numa cena e atua a partir de seu “papel” escalado nessa cena, o que permite que Freud em “Observações sobre o amor transferencial” (1915) entenda a transferência também como resistência e condição necessária para a repetição em análise. No entanto, o recordar não significa lembrar com clareza e certeza de eventos passados, mas ser capaz de enunciá-los ou, nas palavras de Freud “...preencher lacunas na memória...” (Freud, 1914. Pg.163) o que pode produzir o efeito de elaboração e familiarização a partir da revelação das resistências. Podemos entender que narrativa e trauma se justapõem nessa citação e disputam, portanto, o lugar da memória desde os primórdios de nossa constituição subjetiva, se prolongando no campo social sob a forma de elaboração e repetição.




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